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Marry The Night - Lady Gaga

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Não tão cheio de metáforas e nem tão polêmico como se esperava. No entanto, de um pulso que apenas Gaga poderia oferecer. Marry The Night, lançado nessa sexta, dia 2, classifica-se como uma autobiografia, um curta-metragem retratando os piores momentos da cantora, antes de ela cruzar o céu e se tornar uma estrela. Com sequências de dança, explosões, cenas de nudez e um ataque violento contra uma caixa de cereal, Gaga cria pra sua vida um filme espetacular, provavelmente um dos melhores videoclipes de sua carreira.



O clipe começa com um diálogo interno, onde a artista, sendo levada para um quarto em uma clínica de reabilitação, devaneia sobre o seu passado e a forma como enxerga seus excessos: "como uma expressão artística". Provavelmente a cena faz referência à época em que, pelo uso excessivo de drogas, a cantora havia perdido tudo: a confiança dos pais, o apoio dos amigos e o incentivo da gravadora. No diálogo interno, Gaga ainda fala sobre a maneira como a psicologia enxerga o trauma como o assassino final, o dano emocional resultado de alguma experiência de dor ou sofrimento que conduz ao estresse e provoca mudanças físicas no cérebro, afetando tanto o comportamento quanto o pensamento da cantora. “Memórias não podem ser recicladas como átomos e partículas na física quântica. Elas podem ser perdidas para sempre.”, ressaltando como algumas drogas são capazes de apagamentos com perda completa de memória, difíceis de serem posteriormente resgatadas.


Comparando-se a uma pintura inacabada, a compositora percebe que precisa preencher todos os traços imperfeitos de sua arte, para então deixá-la bonita outra vez. Deitada em um leito, nitidamente em tratamento, ao conversar com uma das enfermeiras, a cantora solta a frase que permanecia oculta em todo o diálogo interno: “ - Eu vou fazer isso. Eu vou ser uma estrela. Você sabe por quê? Por quê eu não tenho mais nada a perder.”




Mesmo depois de recuperada e de ter retornado a sua casa, é surpreendida com uma ligação do seu chefe, demitindo-a. A cena remete ao que ela própria chama de "um dos piores dias da minha vida", quando foi dispensada da gravadora Island Def Jam. Mesmo antes dessa cena, Lady Gaga é mostrada dançando, tomada de talento, uma faísca iluminada provando que realmente é uma artista. “ - Mais je suis un artiste.”, afirma, no momento da ligação, defendendo-se. Nesse momento do videoclipe, a cantora entra em surto, um desespero beirando à loucura. Onde cereal, um espelho, alguns LPs e outros objetos se tornam o alvo de sua fúria e o depósito de toda a sua indignação. “Mas, depois da catarse, vem a construção da nova ordem e é aí que reside o dilema atual. Ao “dia de fúria” precisa se suceder uma articulação.” [CACCIA, SILVIO].


Passado o acesso de raiva, a câmera foca na cantora pintando o cabelo para menta. "Acho que a cor de menta será muito usada na próxima primavera.". Mudando seu padrão estético para recomeçar uma nova vida. Depois de derrotada por si própria, no entanto reerguendo-se, junta alguns retalhos de roupas e  brilhantes e com a ajuda de seu bedazzler coloca tudo em um jeans velho  e "faz o que toda garota faria: tudo de novo".








No meio da noite, a lua cheia e com fina chuva, começa oficialmente Marry The Night. Um misto de cenas a la Gaga e uma música não menos intensa quanto a produção do clipe. I'm gonna marry the night. I won't give up on my life. I'm a warrior Queen. Live passionately tonight. I'm gonna marry the night. I'm not gonna cry anymore.” Dá-se início a transformação da mulher em decadência para a estrela tão cheia de talento que esse século nos presenteia: Lady Gaga.



Um endereço surge no final do clipe, escrito na mão da artista. É o endereço da Interscope, gravadora que acreditou em seu potencial e a acolheu. Finalizado com a cantora em chamas, em alto posto como uma rainha soberana, o clipe termina com uma perfeição única, principalmente para a estréia da cantora como produtora de seu próprio clipe (e para a estréia como atriz, que na minha opinião, ficou fabulosa). Um videoclipe memorável, que entra pra história da cantora e de todos os seus fãs.

Novo Mundo

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Era o quê outrora a imaginação criava, o que a audição desenhava para mim. Mulheres com seus rostos ainda não marcados, pouco nítidos, uns corpos iguais ao que escuto – nas diferenças que minha mãe por vezes ressalta. Diz que são das ancas mais firmes, esparsas e chamativas, nada que de súbito chamasse atenção pelo olhar. Por um momento ignoro o que fisicamente me rodeia e devaneio.

Lembro que pequeno escutei dizer que a alma ficava presa ao corpo e o único deleite que a dita possuía do mundo era pela visão, era pelos olhos, nada mais além, via apenas, sem interagir. Penso em minha alma, que vida essa que lhe dei, merecia condição melhor, mas sabe-se lá o que as complexidades da vida colocaram no caminho meu sem que eu pudesse ver. Sem nunca ter visto.

Talvez eu seja minha alma, minha alma presa no eu criado pelo que ela, ou eu, escutamos. Ou somos distintos presos em um só propósito. Então dizem que depois da morte a alma vai embora e eu fico. Por vezes torço que minha alma seja eu mesmo – não quero ficar por cá não. Mas deve ser isso mesmo, meu eu inteligente nesse corpo que apenas obedece. O que é triste, meu eu minha alma ao mesmo tempo, então eu vivo só aqui dentro realmente.

Mas esses pensares sem fundamentos eu prefiro deixar de lado, me certificarei de descrever a cena curta que ainda me recordo. Haviam uns quadrados imperfeitos também que habitavam pelo chão, todos chamam de rua por essas bandas. E eu andava numa naturalidade, num caminhar tão espontâneo, sentia-me senhor supremo de cada passo meu. E assim era, até que uma comichão, uma coceira danada, aquele incomodo ferrenho e pá! 

Um bicho me tirando o sono. Não era a primeira, distante de ser a última vez que tenho meus sonhos interrompidos. Chamei a mãe pra me guiar até o banho, já era dia, arrumei pra escola, numa reminiscência, enquanto ela dava os gritinhos peculiares de mãe. Nessas horas penso que se pudesse escolher, preferiria ser surdo ao invés de cego.

Camila

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Nessa casa os quadros contam história, os papéis escravos do drama familiar narram de tapas sem razão a sexo sem desejo. E penso que esse meu corpo, que deus fez de uma alma impura, é belo a vontade para contrastar com o pó miserável que carrega a memória desse casamento sem sorte – não meu.

Ninguém, exceto a mim, circula nesse lugar e tenho certeza de que é hora de esperar o bem amado. Nos seios um tecido suave, nas ancas firmes uma saia velha e nada mais embaixo. Os cabelos úmidos aroma framboesa – agradeço as loções que me dão cheiros de outros continentes - e as mãos rígidas estigmas desse lavar que me corrompe a coluna.

Chega sempre na mesma hora, beijo-o do queixo as pontas do ouvido, sussurra-me uns dizeres que me fazem convencida. Põe fora toda aquela paixão que cresce instantânea.  Roçando corpos um tempo e a porta gigante que denota a frente da casa range quase sem se notar, porém nota-se. Separamos os corpos numa rapidez clandestina e fingimos sérios.

- Essas propagandas partidárias deviam dar sossego, na rua, tv, até o mercado do Sião deu pra essas presepadas... Vote consciente e isso, vote certo e aquilo, cogito nem votar esse ano e vocês?, pergunta, tomando todo o ambiente, a mulher que usa do mesmo homem que eu.


- Eu não sei, nenhuma opinião ainda, não entendi o vocês, nem idade a Camila tem pra votar, não é?, respondo que sim nada orgulhosa e deixo os meus pais sozinhos no lugar.

Meretriz da baixa avenida

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Coloca alguns cigarros no bolso e outro nos lábios frios. Traga toda aquela vontade incontida e despeja o prazer exacerbado numa fumaça que se atenua. Repete o processo tantas vezes enquanto os olhos procuram companhia ou um corpo, apenas, que não fale, mas obedeça. Fita uns rapazes fortes, esguios e de faces repletas de falsa candura. Não há interesse, o momento é outro, o instante é outro. Se ao invés daqueles homens tão cheios de si, houvesse um menino tímido, disposto a ouvir, aprender. Mas não havia. 

Caminha ainda veloz e depara-se com quase riqueza a pouco almejada. Dos olhos escuros e assustados, das mãos nervosas e sem jeito, dos seios atentos e de uma cintura firme, mas súdita do tempo.  Era bela, moça muda, mas cheia de corpo. Conversaram pelo tempo necessário. Em se tratando de negócios, agilidade e esperteza são fatores fundamentais.

No ambiente apropriado aos devaneios, se olham. Dele um olhar viçoso, reto, marcado de culpa, olhar que – pasme – tem sede, sede de vida alheia, vida vagabunda. Dela se ofusca vontade, transpira nervosismo, não é a primeira vez, já esteve na situação por muito menos, o prazer, se der caras a cena, será bem recebido por surpresa. Não é tarde pra mudar o tempo, pra sair da situação, mas prefere o risco, a moçoila dos peitos já intumescidos, dos lábios embebedados de desejo, deixa assim.

Um remexer desesperado se prorroga. Trata sua virgem na violência, mas paradoxalmente vai semeando sentimento. Ele, força, fixa-se tenaz ao corpo que se apresenta escravo. Enroscam-se formando um agonizante gemido, um ofegar desinibido, apertam-se. “Pera, calma”. Fortemente atracam-se lotados de uma vontade não compartilhada. Um penetrar de opiniões, um entrar e sair de conceitos. O calor misturado a arrependimentos, ela sem ar: “pera, um instante, vou no banheiro”. Porta do mictório fechada, ela fita-se um instante no espelho, num batom tom escuro escreve coisas na vidraça suja, um “que merda”, uma declaração talvez, e volta ao quarto disposta a deixar o local.

Sendo impedida de ir embora, esperneia e grita “me solta, louco, me solta, porra!”, cada hora mais cheia de arrependimentos. “Porra é o caralho. Puta! Isso mesmo, puta! Meretriz da baixa avenida, é isso que tu é!” e tasca-lhe os punhos na face da pobre. Novamente sendo despida, agora sem consciência, vai tornando-se útil as vontades doentias. Ele certifica-se de que a moça morre e torce-lhe o pescoço pra terminar o ato, pra matar por fora o que por dentro fenecia há tempos.

Sem quaisquer pesos, levanta-se, arruma-se lento e vai acendendo cigarros que lhe sossegam a mente. O corpo que ficasse por lá, destino do lixo todos sabem qual é, o trabalho de dar fim ao entulho que fosse de outro, não dele, o seu bem a humanidade acabara de fazer. E ainda pelo quarto, toma-se de uma vontade de urinar, despejar esse aperto pra fora. Esporrada de uréia, de uma uréia diluída a satisfação, sim, mas também marcada pela culpa. E saindo apressado, sem lavar as mãos, percebe uns escritos adelgaçados no espelho, aproxima-se gradualmente e atento, lê as palavras que lhe soam incômodas: “desejo que o mais novo soropositivo do mundo seja feliz!”. E ela também fizera o seu favor à humanidade.
  


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Depois de um tempo o conto foi mudado, o final foi reescrito. Especificamente depois de algumas sugestões feitas pelo Guilherme de Andrade, sugestões de muitíssimo valor.

Barca Boa

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Pegou no meu braço com força bruta, num estampido forte, numa surra de boa intenção. Confesso a vontade, ninguém tão perto, sem populações, sem nada. Deixei a falta de ritmo se apoderar de todos os movimentos involuntários que nos surgiam, nasciam alterados, acelerados, lascivos, formados dessa falsa paixão. Ficou assim, nessa respiração vaga, numa espera incontida de um e de outro. Um passo se houver o teu passo, seu passo se houver meu passo, movimentos dependentes.
Desde o primeiro dia de viagem fitávamo-nos cheios de segredo, repletos das más intenções. O tempo passava desesperado e uma ladainha de indiretas e confissões que não são confissões ocupava os dias de férias. Entendiam as meias palavras quem queria e conforme queria, mas todos ouviam. Vive-se de acordo com suas próprias interpretações. Agora, no entanto, retornávamos pras nossas casas no caminho do rio.
Sem mudar de posição, os braços meus seguros naquelas mãos alheias, com um espaço não muito longe entre nosso físico, ainda na espera de uma reação. Voltávamos pra cidade, pra poeira, pro aglomerado de gente. Na barca vinham os outros e nós dois, tinha um silêncio, tinha a sensação do nada, tinha as nossas excitações. Foi toda família passar tempo no interior, talvez quem me agarrasse naquele instante fosse família, tão pouco importa. Qualquer um que nos visse, lá atrás da pequena embarcação, qualquer que notasse nossa falta de ação não se exaltaria. Não muito se abriria aos ares, não raro seriam flores e árvores gigantes, tão gigantes como a vontade de devorar o desejo que andava a solta.
Ficamos ali, estáticos, movidos apenas pelo balançar das águas que nos levavam. No ritmo desacelerado dos fins de diversão, de aventuras e viagens. E viemos, sem mais, apenas desejando estar de fato a sós.